axé
[Do ior.] Bras. / Substantivo masculino.
1.Rel. Entre os iorubas, o poder vital, a força, a energia de cada ser e de cada coisa.
(...)
Interjeição:
4.Expressa votos de felicidade.
5.Queira Deus; que assim seja.
Alguma coisa sempre começa depois de algum carnaval. Um projeto, uma conta, uma tese, um estudo, uma paixão, um amor, um ciclo. Por isso e somente por isso, quando o carnaval vai embora na suave cadência do samba, o ano coloca o pé no mundo; às vezes, os dois. Com o (pé) direito, ele ensaia as matizes do que pretende ser e aquela lista de intenções [parar de fumar, emagrecer, comprar consumir um desejo] só começa a valer aqui e agora com os tamborins ao longe e o batuque muito perto. Agora é chegada a hora de parir o ano gingando, com arrasta-pé, ziriguidum, jogando capoeira, as cascas pra lá, sacudindo a pasmaceira.
Simbora pegar o pandeiro que agora é que o samba começa.
Simbora que a vida promete até pra quem nunca tropeça.
Então, axé pra você, pra mim, pra quem mais vier.
Parafraseando a Fal, axé nós tudim!
*
(...)
Acha o irmão babaca.
Se interessa por fotos de mulheres peladas.
Pede pra ficar em casa sozinho.
Me acha velha aos trinta e um.
Está apaixonado novamente por uma gorota.
É isso. Estou com um adolescente de sete anos em casa.
Post da Manu no recém-descoberto por mim "Mãe é nóia".
*
Eu achei tão maravilhosa quando vi na casa da Beth que não resisti:
Não sei se acontece com vocês: às vezes ouço uma canção já conhecida inserida num filme, série ou seriado e, a partir de então, começo a gostar muito. Nem precisa ser uma regravação ou releitura, pode ser mesmo o original velho de guerra que, ao ser usado como tempero de uma boa história ou cena, ganha novo sabor. Três exemplos:
- You've got it, Bonnie Raitt. Essa faz parte de uma certo inconsciente coletivo musical - aquelas músicas que todo mundo já ouviu uma vez na vida, embora não saiba ao certo a letra ou o nome de quem canta. Pra mim era isso, até assistir 'Somente elas' (Boys on the side), um road-movie-mulherzinha bem bacana.
- Call me, Cris Montez. Sempre achei chatiiinha à beça. Ganhava alguma graça na voz do Frank Sinatra, mas aí não vale que ele enobrece até Boi da cara preta. Até que assisti uns capítulos (nem foi a minissérie toda) de 'Anos Rebeldes', em que a Cláudia Abreu interpretava uma Heloísa inesquecível que morria ao som da canção. Passei a adorar - e sempre que revejo a cena os olhos mareiam...
- Twist and shout. É claro que Beatles são Beatles eticeteraetal. Mas eu sou de uma geração que nasceu quando os caras já tinham subido no telhado, literalmente. Então a gente foi conhecendo assim aos pedaços, um bocado aqui e outro ali, não ficou esperando o disco novo sair, sabe como? E pra gente essa música é a cena do Matthew Broderick em 'Curtindo a vida adoidado'. Lembra?
E você, lembra de alguma canção que um dia passou na sua frente diferente e te arrebatou?
Foi feito por um sociólogo o mapa da violência do país e foi constatado que os municípios longe das zonas metropolitanas são os mais violentos. A maior parte dos municípios mais violentos está no Mato Grosso, em áreas em que o poder público não existe. (Tem que ser assinante UOL para ouvir).Ouçam. Bjs
Let
Recebi por e-mail, dela. Relevem o sotaque e escutem, as conclusões são muito interessantes.
Eu já falei que adoro Oscar, né? Mas quero registrar que a cerimônia desse ano foi uma das melhores de que tenho lembrança. A Ellen Degeneres estava ótima. Descontraiu o clima indo conversar com as celebridades da platéia, se fazendo de fã, bagunçando aquela coisa toda arrumadinha da cerimônia, que, afinal, é de gala. A premiação também me agradou. Eu tinha meus preferidos, como vocês devem lembrar. Não acertei quase nada, só cravei as barbadas: Alan Arkin e Helen Mirren. E A Verdade Inconveniente, claro. Mas esse praticamente concorreu sozinho. Aliás, uma das coisas que mais gostei na festa do Oscar foi a participação de Mr. Gore, que foi, indiscutivelmente, a estrela da noite. Aplaudidíssimo, super político e ao mesmo tempo totalmente à vontade. Acho que quem assistiu presenciou o nascimento de um novo ídolo mundial. Isso é que é dar a volta por cima.
Sobre os figurinos e fofocas de bastidores, a Denise e a Fal falaram melhor que ninguém, e em tempo real, então nem me atrevo, porque notícia velha só serve para embrulhar peixe na feira, como aprendemos na faculdade de Jornalismo (se bem que hoje em dia esses peixes são mais metafóricos que reais, mas enfim). Quem perdeu e se arrependeu, pode dar uma olhada no site oficial do Oscar: na página inicial tem um clipe com os melhores momentos, são só cinco minutinhos e o melhor da festa, incluindo duas performances do Pilobolus, o grupo de dança contemporânea que deu um toque bem moderninho à cerimônia.
O Ricardo Boechat matou a pau hoje no programa de rádio (na Band News, de manhã), dizendo mais ou menos o seguinte: as pessoas deviam canalizar essa energia toda do debate sobre maioridade penal (energia mais ou menos, porque a discussão é toda via internet) para exigir a melhoria das condições das escolas públicas. Podia até ser que as coisas começassem a mudar.
E se o menino se chamasse Wesleysson, morasse no Complexo do Alemão, o carro fosse um Corcel velho sem licenciamento no Detran, a mãe fosse empregada doméstica e o pai desconhecido? Alguém ia reclamar? Alguém ia sequer notar?
Li em dois blogues de moços que respeito críticas indiretas e muito gentis a nossa omissão em relação ao assunto do momento, a morte do menino no assalto brutal.
É verdade, eu não estava mesmo querendo falar sobre isso.
Em primeiro lugar, porque, como mãe, é tão absurdo imaginar o que aconteceu que realmente prefiro nem tocar no assunto para não lembrar. Esse é o motivo egoísta, alienado, chamem como quiserem.
O outro motivo é menos emocional e mais intelectual, se é que posso chamar assim. É que eu acho tão cafona, tão ingênuo, tão inútil essa indignação a cada evento violento. É tão classe média, no mau sentido, fazer passeatas vestindo branco ou preto, bater palma pro avião com a faixa que passa na praia, colar cartazes pedindo alguma coisa que ninguém sabe bem o quê.
O problema da violência no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, é tão complexo, envolve tantas variáveis, que uma passeata a mais não vai fazer a menor diferença. E eu sinceramente (com todo o respeito a quem se comoveu genuinamente) acho meio perigosa essa sensação de que "pelo menos estamos fazendo alguma coisa". Eu acho que não estamos fazendo nada. Ou pior: estamos mais uma vez nos indignando com algo que nos atingiu no que temos de mais pequeno-burgueses, reclamando (com razão, é verdade) porque nossa vida de privilégios num país de Terceiro Mundo foi afetada, nossa bolha mais uma vez se rompeu, antes de se formar novamente.
No dia que for convocada uma passeata que reúna na praia de Ipanema não só os moradores do asfalto, mas também o pessoal do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, podem contar comigo. No dia em que depois da passeata for promovida uma reunião entre as associações de moradores da Zona Sul e os representantes das favelas, eu posso me despir da minha descrença. No dia em que os moradores dos morros forem considerados cidadãos, eu visto branco, preto ou a cor que quiserem.
Enquanto houver cidadãos de primeira classe, com direito a tudo, inclusive à indignação, e não-cidadãos de segunda categoria, que ficam de fora tanto das festas quanto dos protestos, me desculpem, mas eu não vejo sentido nem em começar a falar sobre o assunto. Por isso acabo me calando. Porque fico aqui achando que deve haver muita gente do "outro lado" da nossa sociedade indignada com a barbárie. E com muito mais razão que nós, aliás. Mas eles não podem fazer passeata, senão nós vamos pensar que é arrastão.
-Monix-
Helê, acabei atrapalhando um pouco o seu clima de carnaval, mas o Dufas é isso aí. Aliás, o Rio de Janeiro é isso aí.
Sou uma espécie de foliã aleatória: alguns anos eu curto muito carnaval, em outros quero distância. Curioso é que, nas duas circunstâncias, a mesma emoção me fascina: a alegria infundada que move os foliões. A mesma que eu senti pulando à passagem do Cordão do Bola Preta, carregando minha filha no colo, um calor miserável e mais gente em volta do que eu precisava. Essa mesma alegria, que à distância me parece inexplicável, foi genuína e intensa no sábado pela manhã, no Centro do Rio de Janeiro.
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Alegria infundada sim, porque tudo continua rigorosamente como antes da folia, problemas inclusive; as dores particulares e as coletivas. Há, claro, a delícia de encontrar amigos, viver fantasias, beber todas e beijar muito, mas falo de outra espécie de alegria, que vem do Reino do Insondável, surge repentina e esfuziante, some mansa e misteriosa.
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Cena mais repetida: alguém berrando no celular: ''Cê tá aonde??!!''
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O carnaval mais animado dos Carvalho Costa nos últimos anos: Bola Preta, Banda do Largo da Segunda-feira; Volta, Alice; Bagunça o Meu Coreto e Bloco da Ansiedade. Com direito à praia no domingo o dia inteiro. E a tradicional Feijoada da Cristina na segunda. E terminar a terça-feira jantando no Lamas - tudo com filhote a tiracolo. Tá bom pra você? Nós adoramos.
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Aliás, Juju foi um capítulo à parte neste carnaval. Com sua fantasia três-em-um - princesa, bailarina e fada - foi guerreira, esteve conosco em todos os programas e no último dia saiu conosco ao meio-dia e voltou à meia-noite. Claro que teve uma manha aqui outra aqui, mas, no geral, foi exemplar. Descobrimos que ela é recarregável feito pilha. Às vezes falha, mas aí toma um sorvete, joga um confete e pronto, tá inteira de novo, sambando no meio do bloco.
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Talvez por tudo isso eu não tenha dado muito atenção ao desfile. Vi a Mangueira, uma coisa ou outra e nada mais. Rua 10 X tevê 0.
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Chistes carnavalescos:
- Numa camisa: Vou beber até cair. Depois continuo bebendo deitado.
- Outra camisa: Fuderj
- No Cordão do Boitatá alguém pregava: ''Amar ao outro sobre todas as coisas. Sobre a mesa, sobre o chão, sobre o carro, sobre o sofá...''
- Nomes de bloco: ''Grêmio Recreativo Comunitário Se me der, eu como''; ''Largo do Machado mas não largo do copo''.
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No domingo fui à praia do Grumari. Lotada. Mas a praia em si permanece quase igual à da minha infância: selvagem, sem edificações, mar de um lado, mata atlântica de outro, um pa-ra-í-so.
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Aliás, cariocas, lembram daquele papo: Bom no carnaval é ficar no Rio, porque todo mundo viaja e a cidade fica vazia? Cabô, gente.
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Aconteceu repetidas vezes: bloco, tumulto, gentes muitas, alguém pára pra brincar com a Ju. Depois se despede, desculpando a brincadeira e desejando, de coração, ''Bom carnaval''. Ou brinca com alguém do grupo e despede-se de todos, desejando bom carnaval. Eu não vi uma única briga ou confusão e só encontrei gente a fim de brincar. Só pra registrar.
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Não, eu não saí de japonesa. No primeiro de estola, lá no Bola Preta, a biba olha pra mim solta: Noooosa, arrrrasô no boá vermelho!!!. Era tudo que eu precisava, reconhecimento público. Então encarnei de vez minha fantasia de Chacrete do INSS - aposentada, mas com glamour. No último dia, pra variar, fiz uma escova progressista. Procurem na Caras ou no Dufas.
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Pra tudo se acabar na quarta-feira, no Maraca, assistindo a vitória do Mengão com os amigos rubro-negros. Maravilha.
Helê 23/02, 00:16 Atualização: Agora com fotas. Comenta, vai!
Eu sei que esse blogue está às moscas, graças à Deus os melhores leitores e leitoras do mundo estão se acabando - de pular ou de descansar, whatever. Se você passar por acaso e quiser uma seleção de bons sambas-enredo, ouça no Dufas Dial a minha escolha e discorde, contribua, sambe ou apenas curta!
Bom fim de carnaval!
Olhando a lista dos blocos do carnaval de rua do Rio de Janeiro, na inevitável tensão em torno da escolha daqueles nos quais irei ou não, me bateu agora a forte impressão de que a escolha, essa filha da memória, é, como sua mãe, sempre afetiva.(...) Pensei ainda em escolher (critério cada vez mais importante no carnaval carioca) os blocos cheios, em detrimento dos lotados e dos insuportavelmente lotados. Tá bom, é um bom critério... é saudável. Mas meu olhar acaba sendo de outra natureza: escolho ou elimino os blocos em razão dos meus afetos; do quanto fui feliz ou infeliz enquanto choviam confetes e espuma.
(...)
Do Cordão do Bola Preta, uma lembrança do mesmo carnaval, quando saí pro bloco sozinho, e encontrei pelo menos quatro grupos diferentes de amigos, me sentido o mais querido dos homens. O carnaval faz isso com a gente, no Rio. Todo mundo se sente potencial candidato a vereador.
O blogue tem um nome ótimo - De que lado você samba? - é coletivo e acabou de nascer, não sei no que vai dar. Agora: esse texto do André é imperdível, crônica saborosa e sedutora do carnaval carioca - ou de um tipo, pelo menos.
Cabôco Postadô baixou e deixou várias coisitas - talvez porque vá desaparecer no primeiro bloco que passar na sua janela. Portanto vejam tudo, comentem se possível e tenham um excelente carnaval, do jeito que escolherem.
Depois, o começo do ano, pra valer ;-)
Ah, então é carnaval, né? Então tá então. Eu realizei um sonho de infância e comprei uma estola de penas vermelhas - certamente vou liberar a chacrete que existe dentro de mim.
Ah, e vou sair de japonesa, aproveitando um vestidinho oriental (?!) e o físico do rolo, que eu já tenho. (Eu só contei pra vocês porque todo mundo ri quando eu falo isso, então vocês devem se divertir também, espero.)
Ah, e se der, ir à praia que eu preciso fazer a fotossíntese® ou não funciono direito.
Lembram delas, que desfilaram por aqui no ano passado? Quem quiser reler o texto ou conhecê-lo, passa lá no Chatô, na parte do nosso bestófi. Deixando pegadas, sempre.
Essa há séclos eu quero postar aqui, pra todo mundo ver - e boa parte ter uma ataque fulminante de nostalgia. Não está completo, mas as lembranças que traz...
O título lembra uma canção do Gil, mas aqui falo sobre criações do Chico Buarque:
- Você não acha que ele escreveu 'Futuros Amantes' para nos consolar a todas? Eu, pelo menos, não consigo escutar sem executar pelo menos uns dois suspiros duplos carpados® e um sorriso besta, pensando no amor que nós (eu e ele) (ainda) não pudemos viver.
- Já ''A história da Lili Braun''eu acho que é a metáfora do casamento, ou no embotamento do casamento após a fase tórrida da paixão e do enamoramento. Conquista e rotina, fascínio e acomodação, essas duplas. Não estou falando de um casamento específico, e essa percepção eu sempre tive, independente do meu estado civil ou da minha felicidade conjugal - que ora abunda (ui!). Portanto, não é pessoal, ao contário é geral e generalizante. Ouçam e discordem, se puderem.
E comentem, que eu acho que vocês não dão muita bola pros meus arranjos musicais (apelei, reconheço...)
Helê *Metáfora, segundo genial definição do filhote da Otra, "é uma coisa que não é nem mentira nem verdade".
® Copirráite da Renata, do Objeto Abjeto (sensacional, báideuei).
Ser mãe é ser acordada de manhã cedo com questões altamente relevantes sobre passado, presente e futuro da humanidade... e ter que respondê-las direito!
Terça-feira, 7h11min
- Mãe! O que tem atrás do Pão de Açúcar?
- Que Pão de Açúcar, menino? O Pão de Açúcar da rua? Que a gente vê da janela?
- Não, mãe, o outro, do conjunto do Pão de Açúcar.
- O Cristo? O Corcovado, meu filho?
- Buáaaaaaaa! Nãaaaaaao, mãe, você não entendeeeeeee!
- Aquele morro que a gente vê da varanda?
- É, tipo aquele morro.
- Meu filho, todas as montanhas daqui são viradas pro mesmo lado.
- E o que tem atrás delas?
- Sei lá, o Pólo Sul.
(Parênteses necessário: sim, o Pólo Sul, conforme prova o vídeo aí de cima.)
- Mas então porque você falou aquele outro lugar?
- Que lugar?
- A África.
- Sei lá, modo de dizer.
- Eu sei o que é "modo de dizer". Mas eu não quero "modo de dizer". Você falou que era África e eu acreditei. Agora você falou Pólo Sul e eu acreditei. Eu quero saber a verdade!
...A verdade, meu filho, a verdade? Que tal tentar algo menos complicado?
Hoje meu filho me perguntou por que eu comprei cerveja. Eu disse: para beber quando der vontade, ué. E ele: mas só homem que bebe.
Céus. Nessas horas a pessoa sente que tem que começar tudo de novo.
Pro nosso leitor Giba, que adora uma relíquia anos 80.
Esse é um daqueles vídeos toscos, do tipo ao pé da letra: o cara fala em cura e aparece indo ao médico. Risível de olhar, delicioso de ouvir.
Boa semana!
Inevitável: todas as vezes que leio num adesivo Deus é fiel, geralmente no traseira de um carro, completo mentalmente: E a Gaviões também! *
Sempre confundi 'loja de conveniência' com 'casa de tolerância'; na hora de falar uma coisa saía a outra, mas não entendia por quê. Até que uma amigo descobriu a associação inconsciente: ambas funcionam 24 horas.
*
Logo eu, que gosto tanto de música e amo as palavras, em geral detesto músicas com esse título, como uma do Chico, irritante, ou uma da Cássia em que ela repete ad infinitum. Sobra uma da Bethânia, que é mais uma vinheta. Que coisa, heim?
*
Há um rol de palavras que eu ouvia quando criança e achava que eram inventadas pela minha mãe. Até hoje quando ouço soa muito estranho, como se desvendassem um código restrito. Dá inclusive um certo ciúme, mas também aconchego, porque é como se me pretencessem - ou pelo menos à minha família. Coisas como: ziquizira, sumidade, revertério, perrengue ou pegapracapá (que pra mim só faz sentido assim, tudo junto).
*
Ah, o poder das palavras. Se tem algo com o que eu não me identifico - e cada vez mais deliberadamente me afasto - é do catolicismo e da igreja católica. Tudo pra mim soa a repressão e enfado; as missas parecem intermináveis. Mas quase sempre me emociona ouvir esse trecho, que pra mim são as palavras da humildade e da fé diante do poder incompreensível do Sagrado: 'Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo'. Acho lindo. E rezo, de coração
Reunião de trabalho, retorno de férias. Uma pessoa faz o relato do Fórum Mundial, em Nairóbi. Alguém pergunta pelas questões ambientais e justifica o interesse:
- É porque segundo as últimas notícias sobre o planeta...
E a carioca completa com seriedade, como se propusesse uma intervenção política:
- ...é, o negócio é sério. Parece que ferrou mesmo. O jeito é sair pra tomar cerveja e ir pro samba, porque até 2100... já era.
Em tempos de celulares com foto, câmeras com filmadoras, You Tube, Google Video, agora até o Orkut tem espaço para vídeos pessoais, chego à conclusão de que estamos vivendo o que se poderia chamar de Glauber's worst nightmare: "muitas câmeras na mão e nenhuma idéia na cabeça".
Hahaha.
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim
O resto é seu Trocando em miúdos, Chico Buarque e Francis Hime
Quando a Frida Monix separou-se, foi assim que foi feito: geladeira e estante para um; microondas e cama para o outro e assim por diante. Resguardados os pertences da cria, tudo o que foi adquirido, construindo e planejado juntos, tudo o que fora um dia compartilhado, foi repartido - sem fita métrica mesquinha ou balança viciada; apenas com o sentimento de respeito mútuo e justiça.
Mas essa nem sempre é a prática, mesmo entre casais de uma geração em que o papel de provedor não está restrito ao homem. Não é raro ouvir histórias de amigos, contemporâneos nossos, que ao fim do casamento saem de monza - monzabanando.
Em nome do indivisível - os filhos - preserva-se a casa ao máximo. Mas por quê, exatamente? Sabendo da extraordinária capacidade de adaptação de uma criança e do que significa a perda da presença constante de um dos pais, percebe-se que readquirir alguns eletrodomésticos não é a pior parte do trauma. Já para um homem que sai de um casamento, de uma casa e do convívio diário com os filhos, entrar num apartamento vazio e impessoal piora uma situação já dolorosa.
É claro que casamentos acabam pelas razões mais diversas e há inúmeros fatores a considerar. Pode haver quem prefira o apartamento deserto a uma mulher ciumenta, por exemplo. Também não é raro encontrar mulheres que investiram menos tempo e energia na carreira por causa da família, e que poderiam estar num patamar profissional superior. Nesses casos, é justo que elas recomecem a vida numa situação mais estabelecida que os ex-maridos, que, de fato, terão mais condições de recompor a estrutura deles.
O difícil é conciliar duas Eras que convivem no mesmo espaço de tempo. E adaptar as mentalidades de quem nasceu em uma Era e está vivendo (e irá morrer) em outra. Nós, por exemplo.
E vocês, rapazes, passaram por isso - consigo ou com amigos próximos? As mulheres, o que acham?
Tem um anúncio de uma loja de bolsas sendo veiculado aqui no Rio (na verdade é um busdoor, aquele cartaz que fica colado na janela traseira dos ônibus) que consiste numa mulher deitada, inteiramente nua, coberta apenas por uma grande bolsa amarela. O slogan diz alguma coisa como "Fulana veste a marca tal". Um trocadilho bobo, mas enfim. (Pelo que entendi, o nome da Fulana deveria ser de conhecimento geral, mas eu sinceramente não sei de quem se trata.)
Agora me digam: qual é o objetivo dos publicitários?
a) ver a Fulana pelada, não importando se vão vender bolsas ou não
b) conquistar o público gay feminino
c) atingir o público-alvo composto por maridos, namorados e filhos
d) fazer as mulheres pensarem: uau, se eu comprar essa bolsa, será que vou ficar que nem essa gostosona do Photoshop?
e) alguma razão oculta que eu simplesmente não consigo alcançar
Como não ficar estarrecida com a reiterada violência contra as mulheres nos comerciais de cerveja? Com raras exceções, a estrutura dos comerciais não muda: a mulher quase desnuda, a cerveja gelada e o homem ávido de sede. As campanhas são direcionadas para o homem, aquele que pode comprar.(...)
Todos os comerciais são de cervejas diferentes e estão sendo exibidas simultaneamente. Nesses comerciais não há metáforas. A mulher não é "como se fosse a cerveja": é a cerveja. Está ali para ser consumida silenciosamente, passivamente, sem esboçar reação, pelo homem. (...)
Da mesma forma que o "piadista" racista e/ou homofóbico acha que tudo não passa de "brincadeira", o marqueteiro misógino supõe que sua "obra-prima" apenas retrata uma verdade aceita por todos, inclusive por mulheres: elas existem para servir aos homens. E como é uma verdade aceita por todos, por que não brincar com ela? Ou seja, nessa lógica, ele não estaria fazendo nada mais do que reafirmar algo posto. Será? Não é possível que defendam aquela sucessão de imagens violentas como "brincadeiras".
O que pensam os formuladores dos comerciais? (..) Será que eles ainda pensam que as mulheres não consomem cerveja?
Quer ler o texto completo? Passa lá no Chatô. A autoria é da Berenice Bento, mas nosotras assinamos embaixo.
Quando comecei a ler 'Eu não sou uma só' logo entendi porque mi Sócia leu o livro em questã de horas: é gostoso de ler, envolvente e até divertido, por mais estranho que isso possa parecer de um livro sobre esse tema. É que a Marina escreve muito bem, como a gente já sabe, e o texto do livro mantém aquela respiração, única, pessoal e intransferível (como bem definiu o Idelber).
Uma das coisas que achei mais bacana foi uma certa desmistificação da loucura como sinônimo de genialidade, coisa que sempre me incomodou. Ao levantar a hipótese de que alguns bipolares se não o fossem seriam ainda mais criativos, Marina W. balança um mito antigo e caro pra muita gente que romanticamente, bestamente, acha que o talento pode justificar ou compensar uma doença mental.
Marina conseguiu a proeza de escrever um livro leve (e sério) sobre um assunto grave, pesado. Um livro que fala de um transtorno - vejam bem o nome -, que discorre muito sobre depressão e deprimidos e, no entanto, não te coloca pra baixo em nenhum momento. Muito pelo contrário: enquanto concluia a leitura eu pensava no Vinícius cantando:
É melhor ser alegre que ser triste
alegria é a melhor coisa que existe
ela é como uma luz no coração
mas pra fazer samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
senão não se faz um samba não (Samba da Benção)
E como sói acontecer na Rádio Cabeça, uma música puxou outra e eu criei a playlistPra Marina W., como homenagem e agradecimento pelo relato, pela coragem e generosidade - sem as quais ninguém revela tanto de si.
Tenho 37 anos e não dirijo. Carros. E não há para isso uma explicação sensata, como medo do trânsito. Ou uma opção ética, do tipo não gosto e não quero. Não, apenas não dirijo carros até hoje, embora já tenha tido aulas em diferentes momentos da vida.
Claro está que isto pra mim é metáfora de algumas coisas, mas saindo do pessoal e indo para o cultural, o coletivo ¿ que eu sempre achei sociologia mais fácil que psi - , eu comecei a pensar no que significa para as mulheres dirigir um carro e elaborei as seguintes hipóteses:
1) Grande parte das mulheres da minha geração têm pais motoristas e mães não;
2) Boa parte das mulheres que conheço começou a dirigir quando precisaram, tendo com o carro uma relação utilitária. Por exemplo, aprenderam a dirigir porque tiveram filho, ou porque foram morar numa cidade onde dependiam do carro. Já os homens aprendem assim que podem, e não quando precisam.
3) Num casal onde os dois dirigem, quando juntos, em geral o homem é o motorista, muitas vezes sem que o contrário seja sequer cogitado.
E você, moça, quando aprendeu a dirigir e por quê? Sua mãe dirige? Dirigir pra você é um prazer?
Esta semana um assunto esteve em pauta em muitos blogues: a não-morte da Meg. Resumindo muito, é uma blogueira conhecida e querida, está doente há tempos, cuja morte foi anunciada em meados deste mês, merecendo diveros posts pela blogosfera afora. Dias depois, começaram rumores sobre a veracidade da informação e, neste fim de semana, concluiu-se que a Meg, como Jamanta, não morreu.
Sobre esse assunto sinto que não tenho nada a acrescenter ao muito que já foi dito*. A não ser que acionou, claro, a Rádio Cabeça e desde então ela toca inisistentemente Meu gurufim e Fita Amarela. A última, clássico de Noel, todo mundo conhece mais ou menos, mas a primeira merece ter a letra transcrita:
Eu vou fingir que morri
Pra ver quem vai chorar por mim
E quem vai ficar gargalhando no meu gurufim
Quem vai beber minha cachaça
E tomar do meu café
E quem vai ficar paquerando a minha mulher
Quando o caixão chegar
Eu me levanto da mesa
E vou logo apagar
As quarto velas acesas
E vou dizer pra minha mãe
Não chora
Amigo a gente vê é nessa hora (Lino Roberto/ Dominguinhos do Estácio/Sebastião Maria)
Gurufim era um velório com música, dança e bebida, muito popular no Rio de Janeiro até início do século passado, eventualmente resgatada em velórios de sambistas e/ou boêmios notórios, como aconteceu na morte de Mário Lago. Em 'Faixa amarela' Noel faz alusão o ritual nos versos 'Não quero flores, nem coroa de espinho/Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho'. O site Favela tem Memória tem um excelente artigo sobre essa tradição, provável herança dos escravos.
Helê *Caso você queira saber do babado completo, o Inagaki escreveu um post definitivo sobre o caso.